MONTE ACONCÁGUA, O MAIS ALTO DAS AMÉRICAS, É ESCALADO POR EMPRESÁRIO DE PALMEIRA

No último dia 23 de fevereiro, um domingo, o empresário palmeirense Edson José Koslosky chegou ao cume do Monte Aconcágua, na Cordilheira dos Andes, em território argentino. Edson, que é adepto de aventuras na natureza, com inúmeras delas já realizadas, escalou a montanha mais alta do continente americano, com 6.962 metros de altitude, em uma expedição formada por cinco escaladores e dois guias. No alto da montanha, ele fez tremular uma bandeira de Palmeira, pela primeira vez na história, num desprendido gesto de orgulho e amor à sua cidade. Porém, antes do gesto de satisfação pela conquista, há uma história de quase um ano, da preparação física e mental até o retorno para casa.

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Do primeiro dia da expedição, 9 de fevereiro, até a chegada ao cume da montanha, 23 de fevereiro, foram 14 dias enfrentando o frio, que aumentava dia após dia, bem como os paredões de pedra e de gelo do Aconcágua, que fazem deste monte uma das escaladas mais perigosas do mundo. O principal desafio dos escaladores é o clima seco, o ar rarefeito da altitude e as fortes rajadas de ventos na montanha. Garganta e nariz ressecam, a respiração fica difícil e a fadiga chega rápida. Além disso, é preciso usar roupas especiais e equipamentos de proteção e conforme vai se ganhando altura, tudo vai ficando mais pesado, mais difícil.

Antes de enfrentar o grande desafio de escalar e chegar ao cume do Aconcágua, Edson fez a Trilha Inca, no Peru, também na Cordilheira dos Andes, com um percurso de 150 quilômetros a pé, em altitude. Depois, novamente no Peru, subiu a 5.600 metros de altitude na chamada Montanha Sagrada dos Incas, onde fica a nascente do rio Amazonas, que depois corre pelo território peruano, entra na Amazônia brasileira e deságua no Oceano Atlântico.

A partir dessas duas experiências, Edson iniciou a preparação para a expedição ao Aconcágua. Sem encontrar muita informação a respeito de como se preparar para a aventura, ele fez um mix de várias atividades. Semanalmente, duas vezes praticava natação, outras duas práticas de spinning, mais duas corridas com exercícios e duas atividades com aparelho que simula subida de escadas. Não foi só, pois praticava várias horas de esteira inclinada com mochila nas costas, trekking na região de Cercado, onde o relevo é bastante acidentado, além de ter subido algumas montanhas, como os picos Paraná, Marumbi e Anhangava, os três no trecho paranaense da Serra do Mar. Isso tudo aliado a algumas pedaladas de mountain bike, corridas na região de captação de água da estação da Sanepar, no rio do Pugas, com a orientação Isabel Cristina Correa, corredora profissional, e atividades em academia. Edson resume tudo isso em suor na camisa, no mínimo, nove vezes por semana por mais de 180 dias. Se soubesse o que enfrentaria na escalada, Edson afirma que teria dobrado o treinamento.

Argentina

Ainda na madrugada de 9 de fevereiro, Edson saiu de casa e, antes do dia terminar, já chegava a Mendoza, na região Oeste da Argentina, a 1.058 quilômetros de distância da capital, Buenos Aires, e 746 metros de altitude. Com pouco mais de 115 mil habitantes, a cidade é famosa pelos seus vinhos, especialmente os Malbec. Apesar dos vinhos, a intenção de Edson, como de centenas de vistantes que chegam à cidade nesse período do ano é fazer a escalada do Aconcágua. Assim, o palmeirense se encontrou com os demais membros da expedição: os escaladores – dois cariocas e uma paraibana –  e um guia brasileiro, de Minas Gerais.

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Da cidade até o Parque Provincial do Aconcágua vai-se de carro, mas é a partir daí que a aventura começa, pois até o acampamento-base, a Plaza de Mulas, a 4.300 metros de altitude, são 25 quilômetros de trekking, carregando parte dos equipamentos. Os mais pesados são transportados pelas mulas. No roteiro estão as estações de esqui de Penitentes e Confluencia, fechadas no verão, mas que recebem milhares de turistas no inverno, quando a neve cobre as montanhas. Também se passa pelo Cemitério dos Andinistas, local onde são sepultados os escaladores cujos corpos conseguem ser resgatados da montanha. Ao passar, o sentimento, segundo Edson, é de muito respeito pela montanha. “O cemitério faz a gente refletir e, claro, rezar”, observa ele, dizendo que em momento algum sentiu medo.

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Na Plaza de Mulas, segundo descreve o palmeirense, tem gente de todos os cantos do mundo. “É uma Babel. Vi poloneses, tchecos, russos, alemães, franceses…”. A intensa presença de expedições de várias nacionalidades mostra a importância do Aconcágua para os escaladores. Afinal, é a montanha mais alta do mundo excetuando-se as gigantes das cordilheiras asiáticas com seus mais de 8 mil e 7 mil metros de altitude.

Partindo do acampamento-base começa a verdadeira escalada da montanha, com todas as suas dificuldades. Uma delas é a adaptação às condições climática e atmosféricas. Edson conta que tem um biotipo adaptado, que nunca sentiu dor de cabeça. Porém, já no segundo dia, uma das mulheres da expedição teve que ser resgatada da montanha de helicóptero pois teve o chamado “mal da montanha”, não conseguindo de adaptar. Depois, a outra escaladora também deixou o grupo. Ainda no segundo dia de subida, uma notícia deixou o grupo com o moral abatido: uma escaladora russa, de 39 anos, sofreu um acidente que provocou fraturas expostas nas pernas, sendo que uma delas foi amputada ainda na montanha. Mais tarde, chegou a informação de que ela havia morrido.

Adaptação difícil e notícia ruim ganham contornos de drama quando, para enfrentar as baixas temperaturas e o vento frio, tem que se calçar botas duplas, jaquetas de penas de ganso, luvas, gorros, calças impermeáveis e um traje de alta densidade (fleece, que é uma segunda pele), além de uma mochila de 115 litros de capacidade e todo o equipamento de escalada.

A água para beber é um dos problemas mais sérios enfrentados pelos escaladores. Carregar água significa carregar peso, o que aumenta o cansaço na subida. Assim, a solução é derreter a neve, utilizando-se de potentes fogareiros a gás butano, que não congela nas baixas temperaturas. Nos acampamentos existe água potável, que é levada pelos organizadores das expedições.

De acampamento em acampamento, aclimatando-se às condições da montanha, levando os equipamentos aos poucos, dia após dia, os três remanescentes da expedição (Edson, Marcelo Mello e o guia Marcelo Deuvaux) chegaram em definitivo ao Ninho dos Condores, a 5.530 metros de altitude, no dia 22 de fevereiro, de onde planejavam a investida final até o cume. A ansiedade por ver tão perto o objetivo fez com que Edson dormisse pouco naquela noite. Às 4 horas, com o dia começando a clarear, os três encheram-se de disposição e começaram o ataque ao cume.

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Este é o relato de Edson sobre a chegada dele, do outro escalador e do guia ao cume e a volta: “Levamos muito tempo para chegar, mas estávamos todos bem. Após as fotos, começamos a descer. Logo no início começou um cansaço indescritível em mim e lembro que falei: – Vamos no meu ritmo que eu chego lá. O problema era que não tínhamos tempo hábil para chegar por causa da noite chegando e, segundo Deuvaux, estava 10 graus mais frio do que em janeiro. Cansava cada vez mais. A garganta ardia. O nariz entupido. A baba que descia da boca ia congelando. O Deuvaux disse para que eu me apoiasse em sua mochila e fomos mais um tanto. Anoiteceu e Deuvaux já muito cansado por levar dois pesos. Alteramos a situação e o Deuvaux foi na frente, para não perder o caminho. Marcelo Melo (muito forte) foi me puxando montanha abaixo. Anoitecia. Temperatura baixando cada vez mais. Garganta doendo. Boca seca. Nariz entupido. Resolvemos ir até o refúgio Elena, a 6.000 metros de altitude. Já quase sem forças, a uns 200 metros do refúgio perdi um dos bastões e não tive forças para pegá-lo do chão. Chegamos no refúgio, Deauvaux conseguiu abri-lo e eu entrei, vi o primeiro canto, joguei a mochila e deitei. Lembro do Deuvaux dizendo que era uma boa ideia dormir na mochila (fiquei três dias com o pescoço doído pela posição). Passamos muito frio, mas, graças a Deus, ninguém se feriu ou ficou com sequelas”.

No ponto mais alto das Américas, Edson fez tremular a bandeira de Palmeira, com um vento gelado de 60 Km/h. e a temperatura de -25°C. A satisfação ele descreve: “Além de hastear a bandeira de Palmeira na mais alta montanha das Américas, a mais alta fora do Himalaia, lá, fiz uma oração por minha família e minha Pátria!”. No dia 29 de fevereiro ele retornou para casa, saboreando a conquista e, talvez, pensando em uma próxima aventura. Mas isto Edson deixa no ar: “O futuro dirá”. 

Edson ainda reflete: “Por que vamos à montanha?” Esta é uma antiga pergunta que obteve uma resposta que ficou muito famosa por volta da década de 1920. George Mallory foi quem a proferiu de uma maneira incrivelmente complexa e desdenhosa: “Porque está lá”.

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Fotos: Arquivo pessoal de Edson Koslosky

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