Foto: Reprodução / Imagem ilustrativa
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Jovem levado para Israel quando bebê procura pela mãe biológica que pode estar em Palmeira

 

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Nascido no Brasil, provavelmente em 2 de junho de 1989, e levado para Israel em junho do mesmo ano pelo pai adotivo, um engenheiro israelense, Dotan Shchori, hoje com 30 anos, vem tentando, há anos, localizar a sua mãe biológica. Em 2013 ele veio ao Brasil e esteve em Palmeira, com grande expectativa de descobrir a sua verdadeira origem. Dotan foi ao Cartório do Registro Civil, ao Fórum da Comarca e ao Hospital Madre Tereza de Calcutá, as referências que dispunha em papéis que portava, mas nada conseguiu. As buscas que fez somente aumentaram o nível de curiosidade e o grau de mistério no qual o caso de sua adoção no Brasil está envolto.

De Israel, na cidade Ra’anana, onde mora, Dotan mantém contatos frequentes desde 2016, buscando apoio para desvendar os meandros da história que pretendeu descortinar quando de sua vinda ao Brasil, três anos antes do primeiro contato, via Facebook. Ele conta que na visita a Palmeira o que descobriu de concreto é que os documentos que possui e guarda, e que seriam a comprovação de sua origem brasileira, na verdade são falsos, forjados para dar um verniz de legalidade ao processo artificial de sua adoção. Tanto a certidão de nascimento quanto a decisão judicial de sua adoção, na forma de escritura pública, foram falsificados. Quem falsificou? É a resposta que ele não tem. Mesmo assim, Dotan acredita que está em Palmeira a chave para abrir as portas da história dos seus primeiros dias de vida. Entretanto, alguém de Palmeira participou do caso ou o nome do município foi usado de forma aleatória?

Dotan tem um nome em mente: Rita Silva. É o nome que consta na decisão judicial que confirmaria a sua adoção como sendo o de sua mãe biológica, supostamente nascida e residente em Palmeira na época em que ele supostamente nasceu. Apesar de reconhecer que se trata de documento falso, conforme comprovado nas visitas que fez aos órgãos públicos em Palmeira, ele acredita que pode ser este o nome de sua mãe. Além disso, Dotan crê que nasceu em Palmeira, apesar de seu pai adotivo tê-lo apanhado em São Paulo, em 1989, e de lá ter tomado o avião para a viagem a Israel, sem sequer vir ao Paraná ou menos ainda a Palmeira. Se ele nasceu mesmo em Palmeira, quem o teria levado até São Paulo e como os tais papéis foram obtidos, já que não são se trata de documentos autênticos.

Certidão Nascimento

Na certidão de nascimento do jovem israelense consta o timbre do Cartório do Registro Civil de Palmeira, mas é falsa, segundo atestou procedimento investigatório feito pelo Ministério Público em 2013, a pedido da juíza Cláudia Sanine Ponich Bosco, assim que tomou conhecimento de detalhes do caso. A assinatura do cartorário da época, Dalmo de Freitas, embora aparente alguma semelhança, também é uma falsificação, assim como o carimbo que nela está estampado. Os nomes das supostas testemunhas do registro, Zélia Gomes e Célio Freitas, ajudam a demonstrar a falsificação. O livro que registraria o nascimento de Dotan existe, tem registrados nascimentos da mesma época, mas na página em que deveria constar o registro do nascimento dele estão dois nomes de pessoas que nasceram e estão vivendo em Palmeira. O número que a falsa certidão exibe não condiz com a numeração sequencial do livro.

Da mesma forma, a decisão judicial pela adoção do então bebê por uma família israelense, datilografada em papel timbrado do Poder Judiciário do Estado do Paraná, Comarca de Palmeira, também se trata de uma falsificação. No documento que o jovem guarda em Israel aparece a assinatura do juiz da época, Manoel Sebastião da Silveira Filho, que tem semelhanças com a original, mas é outro caso de falsificação. O número dos autos está além do total dos procedimentos judiciais oficializados na Comarca de Palmeira naquele ano de 1989. É um número aleatório que o falsificador ou falsificadores usaram para forjar o documento como se fosse original. São falsos, mas não são grosseiras as evidências da falsidade. Daí, deduz-se que foram feitos por “profissionais”.

No entanto, usado o nome de Palmeira, do juiz de direito da época e de cartorário do registro Civil também, de forma aleatória ou intencional, o fato que foi registrado pela imprensa quando da prisão de Arlete Hilu e seus comparsas é que havia a colaboração, obtida por meio de pagamentos de propinas, de funcionários de órgãos públicos. Arlete Hilu era quem comandava um os maiores esquemas criminosos de tráfico internacional de crianças e acabou presa.

Tráfico de bebês

O filho adotivo da família israelense pode ser um dos milhares de bebês brasileiros que foram levados a Israel e outros países entre os anos 1980 e 1990, graças à ação de quadrilhas especializadas em falsificação de documentos para simular legalidade nas adoções e fazer o tráfico internacional de bebês. Na época, segundo notícias veiculadas nos meios de comunicação, tais adoções tinham preço entre U$ 5 mil e U$ 50 mil (cerca de R$ 20 mil a R$ 200 mil, no câmbio atual). Possível vítima de uma dessas quadrilhas, visto que no Paraná foram registrados centenas de casos semelhantes, Dotan vem, há anos, tentando encontrar um indício de sua origem, a mão biológica, assim como outros tantos jovens na mesma condição e que vivem no exterior com famílias adotivas. Já foram muitas tentativas, mas nada de concreto conseguiu localizar.

Em sites e na imprensa brasileira é possível conhecer outras histórias como a de Dotan, todas comoventes e repletas de interrogações. Além disso, há também histórias de mães que tiveram seus filhos raptados em hospitais, assim que nasceram, e que foram vendidos e levados ao exterior para adoção ilegal através das quadrilhas que obtinham lucros fantásticos com a transação comercial ilegal de bebês. Um nome que ficou em evidência no Brasil nos anos 1990, quando muitos casos parecidos com o do jovem israelense foram noticiados, foi o da paranaense Arlete Hilu.

Uma organização chamada Desaparecidos do Brasil estima que o número de crianças brasileiras adotadas em Israel nos anos 1980, como é o caso de Dotan, chegue a 1.500, outros afirmam que pode ser 3.000. Na Itália foram outros milhares e isso se repetiu pela Alemanha, França, Estados Unidos e outros países. Onde estão suas famílias? Não há registros oficiais desses desaparecimentos, mas eles existem. São reais! Será que todas as mães se conformaram em não buscar seus filhos ou é porque não sabem onde e como encontrá-los? Pergunta a organização, afirmando que estamos falando de 30 anos, o que não seria tempo suficiente para esquecermos um filho perdido.

A organização propõe que governo brasileiro disponibilize um banco de DNA gratuito para atender a demanda grande número de nascidos no Brasil que foram levados para outros países e que hoje buscam por suas famílias biológicas.  O cruzamento de informações do DNA, em muitos dos casos, seria a única possibilidade de se chegar a um resultado positivo, visto as poucas informações de ambos os lados. Mas esta possibilidade não avança ou avança muito lentamente, deixando ainda mais dúvidas sobre a verdade. Se é que existe possibilidade de que a verdadeira história seja descoberta algum dia.

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