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Em entrevista, delegado da polícia civil de Palmeira fala sobre os desafios da profissão e o amor pela história

Apaixonado por história e jornalismo, ele é formado em direito pela Universidade Federal do Paraná desde 1985, o Delegado da Policia Civil de Palmeira, Plínio Gomes Filho, recebeu a equipe de reportagem da Folha para contar um pouco sobre sua trajetória profissional e sua vida particular.
Natural da cidade de Palmas, região norte do Estado, Plínio atua na Policia Civil do Paraná desde 1994 e há quatro anos em Palmeira. Já trabalhou em cidades como Pato Branco, Palmas e antes de assumir a delegacia do município prestou serviços em Altonia, cidade vizinha à Guaíra – região de Foz de Iguaçu.
Mas o que um amante de história faz atrás de uma mesa cheia de processos criminais para resolver? Questionado sobre isso, Plínio explica como chegou à vida policial.
Plínio: Meu pai, já falecido, era advogado e eu sempre o admirei tanto na vida pessoal quanto profissional. Eu pensei em várias opções de curso superior nas áreas de engenharia, medicina e até mesmo em história, mas não me via dando aulas. Foi então que resolvi fazer o curso de direito. Advoguei durante alguns anos antes de prestar concurso público. Trabalhei na Assembléia Legislativa do Paraná e somente em 1994 me tornei delegado da Polícia Civil.
Folha: Como já trabalhou em várias cidades paranaenses nesses 22 anos de atividade policial, como o senhor avalia, num breve comparativo, os prós e os contras dos trabalhos realizados em cidades pequenas e grandes?

Plínio: Olha, cada uma tem sua particularidade em relação à estrutura pessoal e física. Lógico, em se tratando de uma cidade pequena, onde o contingente é menor e a estrutura, realizar o trabalho torna-se um pouco mais dificultoso e demorado. Existe ainda uma certa “cobrança” maior por parte da população na resolução dos crimes, onde todo mundo conhece todo mundo. Dois furtos de carro na mesma semana, por exemplo, já deixa a cidade “em polvorosa”. Mas por outro lado, o fato de “fulano conhecer ciclano”, chegar aos infratores acontece às vezes de forma mais rápida.
Já nas cidades grandes, onde o efetivo é maior e a estrutura mais adequada, logo a demanda de trabalho também é grande e alguns crimes acabam tornando-se comuns, infelizmente. Sendo assim, a população até cobra, mas não com o mesmo fervor das cidades menores. A não ser em crimes mais graves, hediondos, como é o caso de estupros, homicídios, latrocínios, etc.
Folha: Como chegou à Palmeira?

Plínio: Eu morei durante 15 anos em Curitiba, onde deixo minha família todos os dias para trabalhando em outras cidades. Para poder ficar mais próximo de casa, na oportunidade da vaga na Delegacia daqui eu pedi transferência. Então tenho “2 domicílios” (risos) logo na chegada. Dia de semana fico aqui por conta do trabalho e aos finais de semana vou pra Curitiba ver minha esposa e filha.
Folha: A vida policial é normalmente agitada, desafiadora e cansativa. Muitas vezes nem bem se soluciona um crime grave já ocorre outro que também requer muito esforço para que se resolva o mais rápido possível. Como por exemplo, o assassinato do morador de rua no dia 16 de julho e a onda de assaltos na Colônia Maciel que ainda está sob investigação, ambos já praticamente solucionados ao mesmo tempo. Além da sensação de dever cumprido, qual sentimento também acaba florescendo nessa hora com tantas turbulências em uma cidade que sempre foi tão pacata?

Plínio: Na verdade procuro agir com o maior profissionalismo possível, separando sempre o sentimento como ser humano da razão profissional. É claro que têm alguns casos que a gente acaba se sensibilizando e até mesmo se revoltando, mas eu procuro sempre ter em mente: essas pessoas que estão aqui dentro nunca fizeram nada pessoalmente pra mim, nunca me fizeram mal diretamente, portanto não cabe á mim julgá-las ou puni-las. A minha parte é juntar autoria e materialidade, reunir as provas e encaminhar para o Ministério Público para que acolha ou não a denúncia.Mas claro, existem pessoas que precisam ser retiradas da sociedade com urgência dado o grau de periculosidade que oferecem aos demais cidadãos.E quando consigo fazer isso junto com a minha equipe a sensação é de alívio pessoal e profissional com toda certeza.
Folha: Falando um pouco agora sobre suas paixões pessoais: jornalismo e história. Apenas curiosidade intelectual pelas áreas ou um hobby que realmente dispõe do seu tempo?

Plínio: Na verdade é uma mistura das duas coisas, curiosidade intelectual e um hobby que eu sinto muito prazer em exercer, já que ambos são da área de humanas. Me arrisco a dizer que tenho mais livros sobre história do que na área de direito (risos). Jornalismo gosto muito justamente porque sou curioso.
Folha: Já deu pra se acostumar com duas rotinas tão diferentes, já que Palmeira e Curitiba são cidades com culturas tão adversas?

Plínio: Palmeira me acolheu muito bem como pessoa e profissional, o povo aqui é muito acolhedor, muito receptivo. Então não tive grandes dificuldades em me adaptar ao trabalho e à vida, mesmo que parcial, por aqui. Já Curitiba , além da minha família, tenho a minha vida social de uma maneira geral.
Folha: Uma curiosidade que acredito ser de muitos leitores: nas centenas , ou me arrisco dizer milhares, de casos que até hoje o senhor já solucionou ao longo da carreira policial, existe algum que realmente marcou, pessoalmente falando?

Plínio: Com certeza. Cuidei de dois crimes bárbaros na cidade de Altonia, município que atuei antes de assumir a Delegacia de Palmeira. Em um deles, falando bem resumidamente, um filho matou o pai porque havia uma desavença grave entre eles e o rapaz tinha alguns distúrbios mentais. Quando chegamos ao local do crime encontramos o corpo do pai com o peito aberto , faltando o coração e ao lado do corpo uma máquina de moer carne com sangue. Mesmo não querendo acreditar naquilo que estávamos vendo, mandamos o sangue pra análise e se tratava de sangue humano. O filho moeu, literalmente, o coração do próprio pai.
Em outro, um homem viúvo, com um casal de filhos, certo dia chamou a namorada na casa pra conversar e quando ela estava indo embora matou ela com dois tiros pelas costas. Depois disso atentou contra a própria vida dando um tiro no peito, mas não conseguiu cometer suicídio. A polícia foi chamada e quando o filho mais velho chegou em casa perguntou pela irmã de oito anos. Depois de várias horas de buscas por toda vizinhança, o dono de uma propriedade rural acionou a policia dizendo que tinha achado o corpo de uma menina com as mesmas características. Era a filha sumida até então. Interrogado ainda no hospital, o pai alegou que não queria mais viver e que pra não deixar a filha sozinha no mundo sofrendo, levou ela até aquele local e também a matou com dois tiros pelas costas. Esses dois crimes com certeza e infelizmente, levarei pra vida toda. De resto, vamos “andando conforme o andar da carruagem”, dias com sucesso, outros nem tanto. O que importa é caminhar.

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