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Ele tem tatuagem, já se apaixonou, vai à academia, festas, joga bola e ainda é Padre

Folha – Como foi seu ingresso no seminário?

Bem extenso, mas sempre fui envolvido com a comunidade, chamada Feicho, onde eu participada com toda minha família. Desde cedo fui coroinha, e quando estava na oitava série não tinha mais como estudar, pois não havia ensino médio na cidade. Padre José Carlos, amigo da família, frequentava rotineiramente nossa casa, e questionou meu pai o que seria de mim, que respondeu que eu iria ajudar no seu trabalho da lavoura. A falta da oferta de ensino médio em minha cidade me obrigaria a não estudar, de família era pobre e humilde, não tinham como manter um filho na cidade. E o padre questionou porque meus pais não me mandavam para o seminário. Nunca pensei em ser padre, estava fora das minhas possibilidades.
Mas depois de conversar comigo, com meus pais e explicando que não precisava ser necessariamente padre, que poderia apenas estudar, me convenceu a fazer uma visita ao seminário. Quando cheguei, vi o campo de futebol, quadra, aquela casa enorme pensei – É aqui que vou morar, sem sombra de dúvidas. Então entrei motivado por outra coisa, o que me atraiu foi o esporte, a casa e morar em Curitiba.
Entrei aos 14 anos, estudei, fiz ensino médio e no final percebi que não era aquilo que eu queria, fiquei seis meses fora, namorei, tive várias experiências e descobri minha verdadeira vocação, tinha de ser padre. Então retornei, no ano seguinte fiz filosofia, teologia e com 24 anos fui ordenado padre.
Folha – Qual a maior dificuldade encontrada na vida sacerdotal?

Foi renunciar, esse período que estava fora tive uma namorada, contudo, terminei com ela pois precisava voltar. Marcia me fazia muito bem, era o amor da minha vida, mas meu amor por Deus era muito maior. “Eu vou esperar que você volte, você vai para o seminário, mas não vai resistir”, disse ela em nossa despedida.
Nunca mais voltei, o sacerdócio foi meu primeiro amor, mas foi difícil renunciar ao amor de Marcia.
Meu segundo momento de dificuldade foi quando completei trinta anos, seis anos depois da ordenação. Me deparei com minhas irmãs casando, tendo filhos, vi nascer meus sobrinhos. Vi nossa família crescendo e pensava que podia ter um filho também. Mas ainda o amor pelo sacerdócio foi maior.
Folha – Se não fosse padre, qual profissão escolheria?

Creio que sou aquilo que eu poderia ser sem ser padre, pois gosto muito da licenciatura e leciono. Além da filosofia e teologia estudei letras, eu amo licenciatura, então mesmo como padre eu continuo lecionando. Se não fosse padre eu estaria lecionando em algum lugar, hoje só na escola diaconal, que é voltado pra igreja.
E também nessa parte de atendimento das pessoas, se não fosse padre eu seria um psicólogo eu acho, porque eu gosto muito e faço do mesmo jeito. Então eu acho que estou no lugar certo.
Folha – Como você vê o processo de restauração pelo qual passa a Igreja Matriz?

Eu acho que é uma coisa que aconteceu naturalmente, e eu gosto de comparar a restauração não somente com o processo de adequação do templo físico, mas uma restauração da comunidade. Eu sinto que desde minha chegada a comunidade foi se renovando espiritualmente, a juventude se fez mais presente na igreja. Aquela casca que cobre a beleza da igreja não é apenas uma restauração, mas também uma coisa que estava engessada no rosto das pessoas. Eu sinto que cada dia temos nos tornado uma comunidade melhor, mais feliz e com mais orgulho.
Agora, da restauração da parte física, abraçar uma reforma dessas é porque é necessário, existiam pinturas belíssimas que estavam escondidas, basta a pessoa ter um pouquinho de atenção e ver que existia algo errado. A beleza estava expulsando a feiúra, é sempre assim. Então foi necessário, meu mérito é possuir esse olhar de observador e ver o que a igreja quer deixar transparecer.
Folha -Qual sua impressão ao chegar na paróquia?

Percebi que a comunidade vivia e vive até hoje sua religiosidade, acredito que é um logo caminho de abertura ao Espírito Santo, que dá alegria. Percebi que a fé da comunidade era uma fé triste. Vejo que até hoje as pessoas têm dificuldade em vivenciar essa fé mais alegre.
Causo escândalo em alguns momentos porque a comunidade não consegue entender um padre que vai na academia, que joga futebol, que vai em uma festa, que circula em todos os ambientes, tem tatuagens e ainda é padre. Acho que a comunidade está aprendendo isso agora comigo, me sinto feliz aqui, nunca me senti desprezado. Nesses onze anos de padre, quatro em Palmeira, percebo que é aqui a comunidade que me sinto mais amado, não me falta nada nessa parte afetiva.
Folha – Sobre a transição pela qual a Rádio Ipiranga passará em breve, qual sua visão?

A rádio Ipiranga vai passar por duas fases de restauração importantes, primeiramente nós vamos restaurar todo o prédio, comprar equipamentos novos, que são necessários, e a rádio possui condições financeiras para realizar essas mudanças no momento.
Também virá a transição pra FM, já está aprovado, só estamos esperando o Governo autorizar. Então precisamos aguardar a adaptação da Anatel e assim que eles aprovarem já temos até nossa sintonia.
Nós vamos receber o sinal rápido porque a nossa sintonia não vai entrar na banda nova, que depois vai estender a banda da FM, nós vamos possuir sinal na casa do 98, tem que ser diferente das existentes.
Folha – Como está a preparação para a próxima Jornada Mundial da Juventude que acontece nos próximos meses?
Daqui quarenta dias nos partiremos rumo a Jornada Mundial da Juventude na Polônia, vamos em 32 pessoas, são 24 jovens de Palmeira, 3 padres, um casal e o coordenador da empresa da viagem que irá nos conduzir.
É um projeto desafiador, e eu sou gosto muito disso, quase impossível, mas eu adoro isso, levar 24 jovens para fora do Brasil é um projeto muito caro, são situações que me instigam muito, quanto mais difícil, mas eu gosto e tenho vontade de realizar. Isso vai trazer um avivamento do espírito pra comunidade, e esses jovens amanhã vão ser pais de família com uma experiência de jornada, quem sabe um padre ao se sentir tocado, quem sabe uma menina pra ser religiosa, Deus está no caminho deles e eu estou investindo porque eu sei que eles são o hoje já da nossa igreja.
Folha – Papa Francisco, o que ele representa para o você?

O Papa Francisco é inspirador, ele consegue ser inovador sem perder a firmeza da doutrina, ele consegue ter os braços abertos para acolher mas com os pés no chão.
Ele não é o Papa do “oba-oba”, é o papa da firmeza, mas sempre com muitas possibilidades. A tempos atrás a igreja era “ou isso ou aquilo” e com o papa Francisco é “e isso, e isso , e isso, ponto”, quer dizer uma pessoa que sempre dá pra ir mais além.

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