Foto: Reprodução / Imagem ilustrativa
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Apesar de subnotificados, aumenta em Palmeira número de casos de intoxicação por agrotóxicos

 

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As chamadas intoxicações exógenas, exposição a substâncias químicas encontradas no ambiente, tem o número de casos em elevação no Brasil nos últimos anos. O volume de notificações de intoxicações por agrotóxicos no país dobrou num período de dez anos. Segundo dados do Ministério da Saúde, 1.534 pessoas tiveram intoxicação confirmada em 2007. Dez anos depois, o número subiu para 3.059. Nesse período, 41 mil pessoas foram expostas a venenos. Município com grande atividade agrícola, Palmeira não fica fora da estatística, pelo contrário, segundo números oficiais, até o último dia 10 de setembro, os casos explodiram, passando de um registro em 2018 para nove no período citado deste ano. O número pode representar um volume não muito grande, mas é, de fato, um sinal de alerta, pois é claramente percebível a subnotificação destes casos.

Atendendo solicitação de informações feita pela Folha, o enfermeiro Jean Carlo das Almas, da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Palmeira, conta que fez levantamento com base em fichas de notificação de intoxicações exógenas. Segundo informado por ele, foram alguns atendimentos ambulatoriais (sem necessidade de internamento) e apenas por contato com folhas do fumo. O enfermeiro reconhece que são “pouquíssimas notificações, é um agravo extremamente subnotificado”, pontua o profissional de saúde. A afirmação é amparada no fato de Palmeira ter culturas diversas, como soja, milho, feijão, trigo, frutas e outras que exigem aplicação de produtos químicos para combate a insetos, fungos e bactérias, com a diferença de que os agricultores, nestas culturas, têm pouco ou nenhum contato direto com as plantas, mas trabalham em um ambiente onde as partículas químicas estão fixadas nas plantas, depositadas no solo ou ficam em suspensão.

Jean Carlo reforça que as intoxicações por agrotóxicos são extremamente subnotificadas no município de Palmeira. “Como é um município com uma área rural extensa, se teve alguma notificação deve ser bem pouca, pois as pessoas acabam não procurando os serviços de saúde quando têm sintomas de intoxicações por agrotóxicos”, diz ele. O enfermeiro conta que a Secretaria de Saúde, através da Vigilância em Saúde, vem sensibilizando os profissionais que atuam nas unidades de saúde pública a notificar os casos e orientar a população no sentido de procurar atendimento médico em caso de intoxicação.

Equipamento de proteção individual

Muitas vezes, o profissional de saúde que atende os casos de intoxicação acaba tratando os sintomas apresentados, mas sem relacionar com o trabalho que o paciente executa, segundo explica Jean Carlo. Ele pontua que há o outro lado, também. Muitas vezes o próprio trabalhador rural não procura o serviço de saúde para atendimento dos sintomas provocados logo após a exposição ao agrotóxico e, algumas vezes, faz aplicação de produtos sem o uso adequado de equipamento de proteção individual (EPI).

Segundo Luciano Gross, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Palmeira, hoje os produtores, cada vez mais, estão se conscientizando em usar EPI. Porém, reconhece que ainda existe resistência de alguns ao uso. “Isso e inevitável, mas não por falta de conhecimento, e sim por abuso”, afirma. Ele disse, ainda, que sempre a entidade realiza trabalhos a campo, junto com técnicos, mostrando a importância de produtos alternativos aos agrotóxicos, como caldas orgânicas e cultivo natural, principalmente para consumo, no caso da produção orgânica.

Normalmente, ao procurarem o serviço de saúde, os agricultores apresentam sintomas como náuseas, vômitos, tontura e dor de cabeça. Como especificamente para Palmeira não há estatísticas sobre atendimentos, um estudo realizado em 2017 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mostra que 67% dos produtores de fumo atendidos em unidades de saúde pública do estado apresentaram os sintomas da doença da folha verde do tabaco (DFVT), causada pela intoxicação por nicotina através do contato da planta úmida com a pele. Os principais sintomas são exatamente vômito, tontura, dor de cabeça e fraqueza, de acordo com o Ministério da Saúde.

Por aí, é possível deduzir que os nove casos notificados pela saúde pública em Palmeira este ano podem não ser resultado de intoxicação por agrotóxicos. Pode, mas a afirmação é temerosa porque as folhas de fumo recebem, durante os quase dez meses do ciclo da planta, do plantio até a colheita, uma grande carga de produtos químicos. São diversos tipos de agrotóxicos, como inseticidas, herbicidas e fungicidas.

Intoxicações e notificações

O tema intoxicação por venenos agrícolas foi abordado por Naiara Bittencourt, advogada da Terra de Direitos, uma organização social que atua no Paraná, em Brasília e em Santarém (PA), durante a 18ª Jornada de Agroecologia, que aconteceu em Curitiba entre os dias 29 de agosto e 1º de setembro. Segundo ela, “uma contaminação por agrotóxicos pode acontecer de diversas formas, pela pulverização área aplicada de forma irregular, de uma forma terrestre que não respeite as distâncias mínimas, ou seja, há diversas formas de um trabalhador rural, de um agricultor se contaminar com o produto e o meio ambiente também”.

A advogada explica que é importante quando, por exemplo, se tem intoxicação em relação à saúde, preciso tomar medidas imediatas, buscar um auxílio médico, algum órgão de saúde. Mas, também, essa intoxicação tem que, necessariamente, entrar para o sistema de notificações. Então, o posto de saúde ou o local que você fez atendimento médico, depois de dar os primeiros cuidados básicos, deve, necessariamente, notificar a intoxicação para o sistema nacional”, informa a advogada.

Paraná

A cada 20 horas, um caso de intoxicação por agrotóxico agrícola é registrado no Paraná. Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, entre 2007 e 2017 (último ano com dados disponíveis) um total de 4.785 paranaenses tiveram intoxicação confirmada. Dentre todas essas ocorrências, 347 terminaram em morte.

Esses números colocam coloca o Paraná como o principal destaque (negativo) do país em termos de internações e óbitos por intoxicação com agrotóxico agrícola. Com relação às internações, São Paulo (4.024), Minas Gerais (3.235), Pernambuco (2.860) e Santa Catarina (1.827) aparecem na sequência do Paraná. Já com relação aos óbitos, o estado é seguido por Pernambuco (342), São Paulo (232), Minas Gerais (166) e Ceará (158).

Os dados, alarmantes, não chegam a surpreender. Isso porque o Paraná, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), é o terceiro maior consumidor de agrotóxicos do Brasil, consumo este que tem crescido. Em 2016 e 2017, por exemplo, foram consumidos um total de 92.160,5 e 92.398,0 toneladas de agrotóxicos, respectivamente. Já no ano passado, o consumo total chegou a 92.904,3 toneladas.

De acordo com o Plano de Vigilância e Atenção à Saúde de Populações Expostas aos Agrotóxicos do Estado do Paraná, publicado em maio do ano passado pelo governo estadual, esse avanço dos agrotóxicos estaria relacionado ao atual modelo de desenvolvimento para o setor agropecuário, voltado prioritariamente à monocultura químico-dependende e produção de commodities para exportação

Esse modelo impõe o avanço sem limites sobre os biomas preserváveis como a Amazônia e o Cerrado. As grandes extensões de culturas de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão e eucalipto alimentam o ciclo dos agrocombustíveis e da agroindústria em detrimento à produção da agricultura familiar de alimentos, esta última responsável pela produção de 70% dos alimentos no país”, explica o documento oficial.

Acontece, porém, que a maior parte dos agrotóxicos consumidos no Paraná representam riscos, tanto que cerca de 80% dos produtos mais aplicados em todas as regiões do estado eram considerados perigosos ou muito perigosos, numa classificação que leva em conta questões como a periculosidade ambiental e classes de uso agrícola.

Princípio ativo mais consumido no estado, o glifosato é classificado desde 2015 pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada a Organização Mundial da Saúde (OMS), como “provavelmente cancerígeno”.

Alimentos contaminados

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Desde 2012 o Paraná possui um Programa Estadual de Análise de Resíduo de Agrotóxicos em Alimentos (PARA/PR), por meio do qual realiza coletas de amostras em propriedades rurais e na Unidade de Curitiba das Ceasa, avaliando a qualidade do alimento e classificando como insatisfatórias as amostras que apresentam resíduos de agrotóxicos acima dos Limites Máximos de Resíduos (LMR) e/ou resíduos não autorizado para as culturas.

Entre 2015 e 2017, 145 das 638 amostras analisadas foram classificadas como insatisfatórias – o equivalente a 22,7% do total. O morango e a uva foram os alimentos que apresentaram maior porcentual de amostras insatisfatórias, variando de 29,6% a 71,4% para o morango e de 20% a 70% para a uva. O pimentão e o pepino que passaram a ser monitorados a partir de 2013 apresentaram amostras insatisfatórias em todos os anos, variando de 22,2% a 75% para o pimentão e 11,7% a 40% para o pepino. O pêssego foi inserido no monitoramento em 2016 e apresentou 80% de amostras insatisfatórias

Podemos afirmar que existe uma contaminação de alimentos por resíduos de agrotóxicos e consequentemente uma exposição da população a esse risco, principalmente quando se observa que a maior parte das amostras insatisfatórias apresentou resíduos de agrotóxicos Não Autorizados”, aponta a Secretaria em seu Plano de Vigilância e Atenção à Saúde.

Pulverização aérea

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Uma das formas de uso de agrotóxicos na agricultura que causa grande contaminação é a pulverização aérea, atividade que fatura anualmente cerca de R$ 936 milhões e gera R$ 234 milhões em impostos. O Brasil, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), possui a segunda maior frota de aviação agrícola do mundo, com 2.083 aeronaves (aviões e helicópteros), das quais 140 (6,7% do total) estão no Paraná.

Acontece que, mesmo com calibração, temperatura e ventos ideais, a pulverização aérea deixa cerca de 32% dos agrotóxicos retidos nas plantas e 49% no solo, enquanto 19% se expandem para áreas circunvizinhas à da aplicação, o que causa riscos graves à saúde humana e ao meio ambiente. “A fiscalização dessa atividade cabe ao Ministério da Agricultura e Pecuária, porém com a atual estrutura deste nos estados, não há um controle e monitoramento eficientes, aumentando os riscos de contaminação”, aponta a Secretaria em seu documento.

Até por conta disso, desde 2018 tramita na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) um projeto de lei de autoria do deputado Tadeu Veneri (PT) que pretende proibir a pulverização aérea de agrotóxicos em todo o território estadual, bem como vedar a comercialização de materiais utilizados na prática de disseminação, pelo ar, dos insumos químicos. O projeto, ainda em tramitação, não é a primeira iniciativa da Casa a tratar do assunto. Em 2012 e 2015, outros quatro deputados chegaram a apresentar dois projetos de lei com o mesmo teor, mas viram suas iniciativas rejeitas pela Comissão de Constituição e Justiça da Alep.

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